O conceito de vulnerabilidade linguística foi cunhado por Judith Butler. Para entender como opera essa vulnerabilidade, conjuguemos essa noção com a de interpelação (termo também presente em nosso glossário clique aqui), e igualmente proposta por Butler em Excitable speech. Em sua discussão, ela reconstrói a cena clássica de Althusser em que um policial interpela um transeunte com um “Ei, você!”. Identificar-se como sujeito nessa situação, entretanto, faz emergir outros tipos de relação, norteadas pela seguinte questão: quem se identifica com o chamamento? Afinal, a força do enunciado policial não se encontra na pessoa, mas em uma convenção social que organiza relações de poder. Do mesmo modo, identificar-se como o sujeito endereçado por um policial é uma ação co-construída por práticas socioculturais que permeiam nossa trajetória. Judith Butler discute o exemplo althusseriano de interpelação, propondo uma revisão: “O sujeito não precisa necessariamente atender ao chamamento para ser constituído enquanto sujeito, e o discurso que inaugura o sujeito não precisa necessariamente assumir a forma de uma voz” (pp. 59-60). Para a autora, uma vez que alguém nos chama, somos instados a reagir, mesmo que seja com silêncio. Dito de outro modo, as palavras agem sobre nós de maneiras que não podemos antecipar. Podemos pensar aqui em signos linguísticos, como nomes, qualificações e julgamentos, mas também em signos não linguísticos, como imagens, que podem ganhar diversas cores e formas (prints, snapshots, vídeos, memes). Esses signos convocam nossa atenção e interpretação. Somos, assim, sempre vulneráveis a formas de dizer-chamar-nomear-avaliar. Mesmo que não nos identifiquemos com “a demanda”, ainda somos mobilizados como sujeitos. A interpelação não descreve estados de coisas. Ela nos posiciona em um determinado contexto, delineia os espaços que podemos ou não ocupar, e rege nossa trajetória ao invocar rituais socioculturais que classificam nossas práticas como in/apropriadas. A partir disso, Butler declara: “ser nomeado por outra pessoa é traumático: é um ato que precede a minha vontade, um ato que me introduz em um mundo linguístico no qual eu posso, então, começar a exercer alguma agência” (pp. 70-71).
Confira o conceito em CONTXT(O) em Quando um meme funciona como injúria: O caso Gabbie Hanna
« Volte