Branquitude

Branquitude

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O debate sobre a branquitude ganhou maior notabilidade nos estudos críticos das relações raciais, principalmente a partir do final do século XX, quando o foco das pesquisas deixou de ser exclusivamente “o outro” (as populações negras e indígenas) e passou a investigar o grupo considerado hegemônico: os brancos. No Brasil, o campo foi consolidado por trabalhos pioneiros de pesquisadoras como a psicóloga Cida Bento e Lia Vainer Schuchman. Mais recentemente, o debate tem se expandido fortemente para a análise da linguagem e da cultura visual, com contribuições de intelectuais como Lilia Schwarcz, que analisam como a branquitude foi forjada na nossa história imagética e documental.

A branquitude não se resume à cor da pele de um indivíduo; trata-se de um sistema estrutural de poder, privilégio e norma social. Nas práticas sociodiscursivas, a branquitude opera se colocando como a “norma universal” e neutra da humanidade. Isso significa que pessoas brancas criam classificações raciais, mas não se enxergam como racializadas.

Um dos mecanismos centrais da branquitude é o que Cida Bento define como “pacto narcísico” ou “espelho narcísico”: a tendência de grupos brancos se verem como o padrão ideal, preferindo proteger e promover os seus “iguais”, o que perpetua desigualdades profundas disfarçadas de meritocracia. Desse modo, a branquitude atua criando “zonas de invisibilidade”. Como demonstra Lilia Schwarcz, se o racismo é uma estrutura, ele estrutura a nossa linguagem (escrita, falada e visual). A branquitude age como “a presença da ausência”: ela raramente precisa ser nomeada para exercer poder. Ao dominar o imaginário, ela define, por convenção, quem ocupa lugares de subordinação e quem detém a humanidade plena. O combate a essa estrutura exige que pessoas brancas passem por um processo ativo de letramento racial, abandonando a posição de neutralidade, para reconhecerem os próprios privilégios e assumirem responsabilidade histórica na quebra desse ciclo, somando na luta antirracista sem retirar o protagonismo de pessoas negras.

Para saber mais:

 Imagens da branquitude: a presença da ausência (Companhia das Letras, 2024), de Lilia Schwarcz. Vencedor do prêmio Jabuti Acadêmico de 2025, a obra propõe uma “leitura de imagens na contramão” para desvelar como o privilégio branco foi construído visualmente no Brasil.

O pacto da branquitude (Companhia das Letras, 2022), de Cida Bento. Obra fundamental para entender a dimensão psicológica e institucional da proteção dos privilégios brancos.

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