A retórica do arrependimento

O ano é 2019. As primeiras notícias acerca de um novo vírus, popularmente chamado de Coronavírus, ganham destaque na mídia internacional. Com o aumento do número de casos em diferentes países, o alto índice de contágio do Covid-19 o faz ser considerado pandêmico pela Organização Mundial de Saúde. Tal instituição, apesar de não regular diretamente as diretrizes de saúde de cada nação, sugere como medida profilática o distanciamento social e a quarentena como formas de conter a transmissão da enfermidade (Organização Mundial da Saúde, 2020). Não é, no entanto, um consenso entre governantes (e cidadãos) se tais medidas devem ser seguidas, flexibilizadas ou ignoradas.

Em março de 2020, em meio ao agravamento do cenário internacional da saúde devido ao alastramento do Covid-19, governantes brasileiros começam a decretar quarentena, suspendendo, assim, atividades diversas: desde aulas em instituições de ensino a práticas de lazer e serviços em negócios do terceiro setor. Tal decisão não se deu de forma pacífica, gerando movimentos tanto de apoio quanto de repúdio – entre os próprios governantes, entre o governo e a população e entre os membros da população, muitos realizados em contextos online e offline.

Não é de hoje que as redes sociais se tornaram espaços frutíferos para a construção e  perpetuação de toda sorte de debate político. Se as eleições de 2018 nos ensinaram algo foi que tanto candidatos a cargos públicos quanto (possíveis) eleitores estão cientes da  relevância que as mídias sociais possuem em contextos de escolha de novos representantes nacionais.

Hoje, quase dois anos após as eleições de 2018 e em um contexto de crise internacional, é possível perceber que os debates acalourados não cessaram. Na verdade, eles continuam firmes e fortes, se abastecendo de uma multiplicidade de textos e discursos que circulam incessantemente. 

Tomemos, por exemplo, a rede social Facebook. Esta, amplamente utilizada no Brasil,  possui diversos recursos (já conhecidos por seus usuários): é possível fazer publicações com  imagens e vídeos em anexo, comentar nas postagens de amigos e/ou figuras públicas ou ainda compartilhar publicações de outras pessoas em nossas próprias páginas. Além disso, a rede frequentemente serve como terreno para a avaliação de pessoas, coisas e comportamentos com base em critérios estéticos, morais e éticos, por exemplo.

Considerando essas características, proponho um olhar sobre os embates discursivos  que vêm ocorrendo na página oficial de Jair Bolsonaro no Facebook. Explicitamente contra as medidas propostas pela OMS, o presidente brasileiro eleito se apresenta a favor do fim do distanciamento social e endossa o uso de certos medicamentos como meio de contenção da doença, apesar da falta de estudos com resultados conclusivos acerca da eficácia dos mesmos. 

Quando publicado no Facebook, o primeiro pronunciamento do presidente acerca do Covid-19 gerou uma vasta gama de comentários como resposta. Estes resgata(ra)m (inter)textos que já circulavam, (re-)contextualizando-os em novas interações. Esses intertextos normalmente se caracterizam como mini-narrativas. 

De forma geral, pode-se perceber um movimento duplo e ambivalente: de um lado, há eleitores que apoiam o presidente e suas ideias; do outro, cidadãos que criticam Bolsonaro e suas propostas. Muitos deles trazem, inclusive, discursos de arrependimento da escolha deste candidato à presidência. 

Proponho que olhemos para alguns desses comentários com o objetivo de entender como se dá a construção discursiva desse arrependimento. Quais pistas linguísticas os agentes  envolvidos no evento discursivo mobilizam ao se posicionarem? Quais são os efeitos de tal posicionamento? 

Este contato com comentários será articulado a partir de alguns conceitos propostos por Wortham (2001). Tais conceitos ajudam na compreensão de que a realidade que nos cerca não é dada ou previamente estabelecida, mas discursivamente construída. Aqui, mobilizarei basicamente dois conceitos: referência e predicação. Enquanto o primeiro indica os objetos do mundo material referidos (e reconstruídos) no texto, o segundo caracteriza tais objetos (apontando para esta dinâmica de reconstrução incessante). 

A forma como cada um desses conceitos sustenta esta pequena investigação poderá ser percebida ao longo das análises propostas a partir de três comentários selecionados a seguir. Apesar de os comentários serem públicos, os nomes dos participantes foram alterados e seus avatares, apagados, a fim de preservar identidades.

Dito isso, direcionemos nosso foco para o comentário de Maurício, uma resposta direta à publicação do primeiro pronunciamento do presidente acerca do Covid-19: 

Maurício disse…

Por meio do signo linguístico “nós”, Maurício faz referência a – ao mesmo tempo em que cria – um grupo imaginado e constituído no e pelo discurso. Este grupo não é detalhadamente delimitado; podemos interpretar “nós” como referência ao chamado povo brasileiro. Essa categoria é predicada como “inteligentes” e “o oposto”. Por um lado, ao predicar esse “nós” imaginário como “inteligentes”, Maurício se inclui nesse grupo, produzindo uma justificativa para seu voto no presidente. Pode-se afirmar então que Maurício predica a si mesmo como inteligente. Por outro lado, o mesmo signo linguístico “nós” é predicado como “o oposto”. 

Cria-se assim uma divisão dentro do grupo imaginado: os integrantes inteligentes e aqueles que são o oposto disso. Tal movimento é típico da ambiguidade da linguagem e mostra como o pronome pessoal usado para a primeira pessoa do plural ao mesmo tempo inclui e exclui o “eu” que o enuncia, estando cada predicação relacionada a atividades específicas – “aprendemos com os erros dos outros” e “cometemos o mesmo erro”, respectivamente. 

Essa dinâmica de referência e predicação sinaliza o posicionamento construído por  Maurício como contrário às ideias apresentadas no pronunciamento de Jair Bolsonaro em 24 de março de 2020. A referência “insatisfação” predicada como “pura” aponta para a retórica de arrependimento construída no evento discursivo. Conforme as palavras precipitam no discurso de Maurício, torna-se possível ver como sentidos de pertencimento vão sendo negociados pelos eleitores do presidente.  

Outro comentário ilustrativo dessa complexa dança entre pertencimento e exclusão, do participante Theo, é reconstruído a seguir: 

Theo disse…

Por um lado, Theo se constrói como alguém que defende e acredita no presidente; em contrapartida, também se posiciona contra o discurso publicado pelo presidente. A predicação do “discurso [do presidente]” como “infeliz”, ao lado do uso do tempo verbal presente em “te defendo” e “acredito em ti”, sinaliza um posicionamento ambíguo de Theo. Há, portanto, um movimento de construção de arrependimento. Em uma retórica semelhante àquela do participante Maurício, Theo primeiramente se alinha a Jair Bolsonaro, criando sustentação e credibilidade à sua fala para posteriormente criticar o discurso. 

E este abalo, assim como ocorre no comentário de Maurício, surge após o explícito apoio à figura do presidente. Vemos, assim, a repetição de uma ideia na escolha dos verbos “defendo” e “acredito” ao mesmo tempo em que uma diferença a esta ideia se avizinha uma vez que o “discurso [do presidente]” é predicado como “infeliz”. Tal ambiguidade comparece também na postagem de Catarina, último comentário aqui reconstruído.

Catarina disse…

A referência ao signo “brigas” na expressão “comprei brigas” sinaliza o apoio concedido por Catarina ao candidato Jair Bolsonaro durante as eleições de 2018. Tal suporte é, no entanto, abalado pela predicação “arrependida”, que aponta para uma mudança de opinião e quebra com sentidos antes construídos. A predicação “difícil”, no final do comentário, está relacionada à conjuntura do cenário político-social atual – apesar de não haver nenhum processo explícito de referência.

Percebe-se, então, que nos três comentários, os participantes mobilizam diferentes referências e predicações no processo de posicionamento. Três comentários é um número pequeno para que possamos tecer generalizações – e este nem foi o objetivo deste texto. Pode-se, no entanto, argumentar que há uma retórica ambígua recorrente no discurso desses três eleitores que mistura orgulho e arrependimento. Nos comentários de Maurício, Theo e Catarina, à (re)afirmação de apoio ao atual presidente da república, segue uma fala de crítica, ou seja, um desalinhamento em relação ao posicionamento do presidente. 

Diante disto, é possível sustentar o argumento de que as redes sociais são espaços propícios a embates discursivos. Diferentes verdades convergem nesses contextos e entram em atrito. Um mesmo interlocutor pode reconstruir seus posicionamentos ao circular por diferentes eventos discursivos no ambiente digital. São tempos fluidos e a reconstrução de si e das crenças que usamos para produzir sentido sobre nós mesmos é sempre possível e se articula de forma complexa. 

No caso da pandemia do Covid-19, faz-se necessário enfrentar discussões políticas e repensar posicionamentos. A crise (inter)nacional causada por esta enfermidade vai além de problemas de saúde pública; ela se desdobra em efeitos discursivos nos âmbitos político, econômico e social, trazendo à tona uma multiplicidade de preconceitos, engessamentos e sentidos cristalizados, bem como resistências aos mesmos. Hoje, as redes sociais se apresentam como um convite à ressignificação e se torna um imperativo aceitá-lo.

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