Teseu-19

Por José Sena (UFRJ/PIPGLA)

Vários dias se passaram desde que a quarentena se impôs sobre a cidade e seus corpos. Agências noticiam o rigoroso aumento pela procura por sites pornográficos. Teseu está há mais de 15 dias isolado no apartamento, distante de aplicativos para encontros sexuais e até mesmo de sites com conteúdo erótico.

Focado nas atividades home Office, se dedica, nas horas vagas, a aprender coisas novas: culinária, decoração, atividade física, política. Imerso nesse universo aparentemente equilibrado, risca, no calendário estrategicamente colado na parede do escritório de casa, os dias em que não entra nos aplicativos de pegação e, desse modo, não se envolve em sexos casuais.

Membro frequente de um famoso app de pegação, Teseu é usuário da PREP e eventualmente transa sem preservativos com os parceiros, amparando-se no benefício da droga que impede a contaminação por HIV. Identificando-se como versátil, varia as fantasias sexuais que distribui entre as posições de ativo e de passivo. Antes que a Covid-19 viesse a ganhar o posto de pior pandemia dos últimos tempos, há pouco mais de três décadas, era o HIV que ocupava esse posto.

Se com o HIV a circulação do signo-vírus produzia os estigmas que pesavam sobre os corpos LGBTI+, com a Covid-19, o novo signo-vírus movimenta outro campo de significação. Por um lado, ele difere do signo HIV. De ‘grupo de risco’ o signo-vírus passa a atingir ‘populações vulneráveis’, o marcador social sexo-generificado se desmancha para os de faixa etária e classe social. Por outro lado, o significado do signo-vírus é sempre deferido, pois se acopla a outros signos como prevenção, cuidado, ética, solidariedade, empatia – um movimento tanto viral quanto semiótico.

O filósofo Jacques Derrida utiliza o termo différance para aludir a essa característica da produção de sentido. Segundo ele, o significado nunca está pronto, sendo o resultado de diferenciação e adiamento.

A reflexão de Teseu mostra que tanto diferir quanto adiar são deslocamentos contínuos, que o perturbam e o levam a chegar ao vigésimo primeiro dia sem sexo, com os dildos e brinquedos de toda sorte desgastados e amontoados em seu apartamento. Foi numa noite dessas que um forte impulso sexual o conduziu ao aplicativo. Sentindo-se mal pela atitude, convenceu a si mesmo de que ia apenas olhar, e que certamente o movimento pelo app estaria fraco ou estagnado dada a gravidade da pandemia.

Para a surpresa de Teseu, o app seguia vivo como se nada (e nem ninguém) morresse mundo afora. Nas conversas traçadas, todos mostravam preocupação com a Covid-19, alguns deixavam evidente que estavam apenas conversando para marcar algo pós-pandemia, mas a maioria não se mostrava nada constrangida em circular e fazer circular o signo-vírus, realidade que fazia eco a outras situações vividas em diferentes partes do mundo. Teseu hesitou por algum tempo até que voltasse aos encontros, que agora ganhavam ares de proibidos. Em busca de alternativas, ainda tentou utilizar a ferramenta da câmera disponibilizada pelo próprio app e sua campanha para manter os seus usuários em casa, mas nada adiantou.

Na primeira vez, veio a sua casa um rapaz apenas para o sexo oral. Ambos de máscara e álcool gel. O rapaz ajoelhou, levantou a máscara e assim se satisfizeram naquela tarde. Repetiu o ritual mascarado por mais uma semana, mas começou a achar a cena ridícula e se rendeu com inteireza ao sexo. Paulo, Alan, Roberto, Thiago, Saulo, Maycon, toda vez que um novo rapaz ia a seu apartamento, Teseu se preocupava em motivar suas narrativas, sobre como eles estavam se prevenindo da Covid-19 e se conviviam com pessoas do grupo de risco em suas casas.

Ainda que envolto em dúvidas e desconfortos, seguiu recebendo diferentes homens. Todo dia um diferente. Todos com narrativas de prevenção e cuidado. Com alguns, transou com camisinha, com outros, sem. Voltando a fugir do real objetivo da PREP, que é a prevenção combinada, fez desaparecer a preocupação com outras infecções sexualmente transmissíveis que a PREP não dá conta, como sífilis, hepatites virais etc. No fluxo de apagamentos, também a Covid-19 sumiu.

Das conversas no aplicativo ao deslocamento dos corpos, signos e fluidos circulavam e produziam materialidades potencialmente patogênicas. O adiamento de um significado cristalizado sobre a Covid-19 se fazia no jogo corpóreo-semiótico em circulação, revelando os diferentes sujeitos no combate ou na manutenção da pandemia. De boca em boca, o novo signo-vírus ia desmanchando-se na conversa e na fricção dos corpos dos boys que criavam variadas justificativas do porquê burlavam a quarentena. Uns diziam que moravam sós ou em casas partilhadas com pessoas jovens. Outros justificavam que a pessoa da casa que era do grupo de risco estava isolada. Outros que só era aquela vez, que precisava aliviar. Outros, não se davam ao trabalho.

Essas narrativas em circulação passaram a perturbar Teseu que a cada encontro sexual se perdia em um labirinto ético que produzia a ele mesmo como algoz, um corpo-vírus em ação. Ele sabia que o sistema sociocultural em que emerge a Covid-19 não permite significá-la, por exemplo, como ‘câncer da terceira idade’ ou ‘câncer de pessoas com cormobidades’, algo cruelmente permitido no sistema sociocultural em que emergiu o ‘câncer gay’. Entretanto, atualizados os sujeitos, o cenário e as demandas coletivas, que corpos importam nessa nova conjuntura?

Foi a notícia de um dos boys que abalou Teseu e o levou a sair em definitivo dos apps. Não apenas o rapaz estava com Covid-19, mas uma pessoa do “grupo vulnerável” de sua família também havia contraído. Chegando ao centro do seu labirinto, Teseu se desmantelava como o próprio signo-vírus e nem o fio de Ariadne o salvaria de si mesmo. Imerso em seu labirinto prosaico, Teseu visionou todos os sintomas de um corpo sem ética. Sem sentir o cheiro e o gosto de uma autocrítica encarnada, percebeu-se febril. Uma leve falta de ar desoxigenava sua política. Ao procurar seu centro de memória, uma rápida radiografia mostrava o senso de empatia e coletividade comprometidos.

Teseu escrevia e contava as horas para o seu encontro com a responsabilidade de que tinha se isentado. E não demorou, para que três dias mais tarde o corpo físico cedesse. Rapidamente, não era mais o cérebro que solicitava decisão eficaz, mas sim os pulmões. Ele, militante anti-cloroquina, se viu no dilema de lançar mão da única alternativa possível, ainda que especulativamente. Cloroquina mais Azitromicina mais PREP? Não havia tesão no corpo tomado de Covid-19. Havia um fluxo intenso de notícias: mais de 40.000 mortes, internações e hospitais lotados.

Alcançando lucidez de dentro do labirinto letal criado por si mesmo, Teseu percebe a repetição sob o acontecimento viral. O que não se aprendeu sobre o HIV de quase quarenta anos atrás, se renova na Covid-19 do tempo presente. O vírus-signo continua a se desintegrar e a se diferenciar de outros. São 23h e a falta de ar ainda o sufoca. Qual o sentido disso tudo? A resposta se faz esperar.

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