{"id":416,"date":"2021-10-19T22:08:00","date_gmt":"2021-10-20T01:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/?p=416"},"modified":"2023-01-24T16:52:55","modified_gmt":"2023-01-24T19:52:55","slug":"mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/","title":{"rendered":"M\u00e3e B\u00e1 e os privil\u00e9gios da branquitude"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">M&#xE3;e B&#xE1; morreu no dia 11 de fevereiro de 2020. Era assim como eu chamava a minha segunda m&#xE3;e. Ela faleceu antes que a pandemia nos tomasse de assalto. Por seu estado de sa&#xFA;de fr&#xE1;gil, come&#xE7;ou a usar m&#xE1;scara bem antes de n&#xF3;s: tinha a imunidade baixa e qualquer resfriado poderia complicar muito a sua situa&#xE7;&#xE3;o. Estava internada em um bom hospital e fazia tratamento em uma das melhores cl&#xED;nicas oncol&#xF3;gicas do Rio de Janeiro, por&#xE9;m, nada disso foi suficiente e ela terminaria dando adeus a este plano da exist&#xEA;ncia. Perdeu a batalha para um tipo raro de leucemia. J&#xE1; tinha tido c&#xE2;ncer de mama h&#xE1; dez anos e pens&#xE1;vamos que se havia livrado de um rebrote. Infelizmente, est&#xE1;vamos equivocados. S&#xF3; agora, um ano e meio depois, consigo me manifestar sobre o assunto. Talvez porque, apesar de sermos seres de linguagem, quando tomados por uma dor t&#xE3;o grande como a perda de uma pessoa amada, nos vejamos incapacitados de produzir entendimento sobre a experi&#xEA;ncia de sofrimento.&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Benedita se converteu em m&atilde;e B&aacute; por conta da minha dificuldade em pronunciar o seu nome quando era pequena. Enquanto todos ao meu redor a chamavam de Ben&eacute;, eu insistia no &ldquo;B&aacute;&rdquo;. Este monoss&iacute;labo, segundo meus pais e av&oacute;s, foi uma das primeiras palavras que eu disse, o que n&atilde;o &eacute; de se estranhar porque ela me viu nascer e teve papel &iacute;mpar na minha cria&ccedil;&atilde;o. Inicialmente, tentaram me ensinar a dizer &ldquo;Ben&eacute;&rdquo;, depois &ldquo;B&ecirc;&rdquo; (pelo menos, a primeira s&iacute;laba eu deveria aprender a dizer corretamente!). Por&eacute;m, por alguma dificuldade fonol&oacute;gica minha &ndash; ou qualquer outra raz&atilde;o que a mem&oacute;ria n&atilde;o alcan&ccedil;a &ndash;, Benedita seria sempre B&aacute; para mim.&nbsp; Ela &ndash; e toda a fam&iacute;lia &ndash; achavam engra&ccedil;adinho o meu erro &ndash; ou insist&ecirc;ncia &ndash; e logo desistiram de me corrigir. Nunca trataram a minha dificuldade como simplifica&ccedil;&atilde;o defectiva, ou seja, aquilo nunca foi usado como pretexto para me definir identitariamente como uma pessoa limitada. Um dos muitos privil&eacute;gios com os quais a <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Branquitude&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;O termo branquitude, de acordo com Maria Aparecida Silva Bento, abrange tanto os tra&ccedil;os da identidade social de pessoas classificadas como brancas, como as hierarquias que essa categoria identit&aacute;ria projeta e suas implica&ccedil;&otilde;es socioecon&ocirc;micas, culturais e pol&iacute;ticas. O termo faz alus&atilde;o ao pacto narc&iacute;sico e t&aacute;cito que garante privil&eacute;gios das mais diversas ordens &agrave;queles\/as que s&atilde;o enquadrados em tal identidade social e nos recorda que todas as outras ra&ccedil;as s&atilde;o constru&iacute;das em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; branca. Sobre as pessoas lidas como brancas n&atilde;o recaem os marcadores sociais da diferen&ccedil;a precisamente porque s&atilde;o tomados como par&acirc;metro. O &lsquo;desmarcamento&rsquo; e o sil&ecirc;ncio que cercam a branquitude contribuem para a manuten&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gios, ao mesmo tempo que faz com que eles passem despercebidos. Como afirma James Baldwin, &amp;quot;o branco&rdquo; &eacute; a met&aacute;fora do poder. N&atilde;o bastaria, portanto, reconhecer as desigualdades raciais, nem sinalizar o qu&atilde;o racistas certas pr&aacute;ticas podem ser. H&aacute; de se olhar para o racismo estrutural e estruturante que est&aacute; embrenhado na sociedade brasileira sem perder de vista os privil&eacute;gios da branquitude. Essas s&atilde;o duas faces da mesma moeda.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O): &amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/&amp;quot;&amp;gt;M&atilde;e B&aacute; e os privil&eacute;gios da branquitude&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\"  href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/branquitude\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>branquitude<\/a> nos brinda. Com m&atilde;e B&aacute;, o mundo foi mais cruel. Seus erros de portugu&ecirc;s &ndash; e sua cor &ndash; lhe fecharam muitas portas. Sem muitas op&ccedil;&otilde;es laborais, ela veio trabalhar na casa dos meus av&oacute;s. Limpava, lavava, passava, cozinhava. E cuidava de mim. T&ecirc;-la ali, trabalhando para a gente, de segunda a s&aacute;bado: eis a&iacute; outro dos privil&eacute;gios que o pertencimento a determinadas classes &ndash; e ra&ccedil;a &ndash; nos asseguram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus pais trabalhavam fora e eu passava o dia na casa dos meus av&#xF3;s maternos. M&#xE3;e B&#xE1; trabalhava na casa deles. Meu av&#xF4; era capixaba e ia com frequ&#xEA;ncia &#xE0; sua terra, mesmo depois de tantas d&#xE9;cadas morando no Rio de Janeiro. Minha av&#xF3;, que era de Corumb&#xE1;, mas raramente ia ao Mato Grosso do Sul, sempre o acompanhava. Durante as f&#xE9;rias de ver&#xE3;o, papai, mam&#xE3;e e eu sempre &#xED;amos com eles para l&#xE1;. T&#xED;nhamos casa de praia em Guarapari. Em uma dessas viagens, meus av&#xF3;s conheceram a fam&#xED;lia da m&#xE3;e B&#xE1;. Ela, que ent&#xE3;o tinha 17 anos, ofereceu-se para trabalhar na casa dos meus av&#xF3;s. Queria vir para o Rio em busca da irm&#xE3; que havia vindo tentar a sorte no purgat&#xF3;rio da beleza e do caos e, passados alguns meses, n&#xE3;o tinha dado not&#xED;cias. Uma vez no Rio, logo conseguiu localizar a irm&#xE3;, que havia deixado de se reportar &#xE0; fam&#xED;lia por n&#xE3;o saber escrever. Muito antes da exist&#xEA;ncia da internet, redes sociais, Whatsapp e outros aplicativos de mensageria instant&#xE2;nea, o principal meio de comunica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o epistolar era o telefone. Por&#xE9;m, dada a situa&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica prec&#xE1;ria da fam&#xED;lia da m&#xE3;e B&#xE1; &#x2013; eles moravam na ro&#xE7;a em uma casa de pau a pique &#x2013;, telefone era um bem de consumo ao qual n&#xE3;o podiam aceder. T&#xE3;o distante quanto pr&#xF3;xima, a realidade de B&#xE1; e de sua fam&#xED;lia escancarava como privil&#xE9;gios de classe e cor reverberam em diferentes dimens&#xF5;es, que se materializam no acesso a bens de consumo, ao letramento, &#xE0; uma moradia digna, dentre tantas outras coisas.&#xA0;&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M&#xE3;e B&#xE1; chegou &#xE0; nossa fam&#xED;lia no in&#xED;cio dos anos 60. Nela permaneceria at&#xE9; o &#xFA;ltimo de seus dias. Eu, que s&#xF3; viria a nascer em 77, durante 42 anos, sempre a tive por perto. E, de fato, ainda a tenho. Sua foto sobre a minha mesa de trabalho e tantos momentos compartilhados impedem que ela se afaste de mim. Foram mais de quatro d&#xE9;cadas de conviv&#xEA;ncia quase di&#xE1;ria. Sua presen&#xE7;a marca tanto momentos-chave da minha exist&#xEA;ncia, como outros mais corriqueiros. Meu amor por gatos, por exemplo, come&#xE7;ou com uma visita aos pais dela. Sempre que &#xED;amos para o Esp&#xED;rito Santo, m&#xE3;e B&#xE1; ia com a gente e aproveitava para estar com a sua fam&#xED;lia. Naquela ocasi&#xE3;o, eu aporrinhei tanto para ir junto que meus av&#xF3;s consentiram e nos levaram at&#xE9; l&#xE1;. Os pais de m&#xE3;e B&#xE1;, dentre outros animais, tinham gatos. Eu fiquei fascinada e, anos depois, &#xE0; custa de muita insist&#xEA;ncia e negocia&#xE7;&#xE3;o, passei a ter meus pr&#xF3;prios felinos, bem mais rechonchudos e saud&#xE1;veis que os da fam&#xED;lia de m&#xE3;e B&#xE1;, o que tamb&#xE9;m pode ser percebido como um privil&#xE9;gio (muita gente n&#xE3;o tem o que dar para seus filhos, o que dir&#xE1; para suas mascotas). Thais, minha m&#xE3;e, que se empenhava em converter meus desejos em realidade, convenceria meu pai, inicialmente contr&#xE1;rio &#xE0; ideia, de termos gatos em casa.&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falando neles, abro aqui um breve par&#xEA;ntese para mencionar duas ou tr&#xEA;s coisas sobre meus pais. Os dois trabalhavam muito. Papai, por conta do trabalho, viajava com frequ&#xEA;ncia. Mam&#xE3;e, que em nada se assemelhava &#xE0; t&#xED;pica dondoca de classe m&#xE9;dia, encarava uma dupla jornada exaustiva. Trabalhava fora e n&#xE3;o tinha descanso ao regressar &#xE0; casa. Tudo isso tinha uma raz&#xE3;o de ser: queriam me dar tudo do bom e do melhor. Mam&#xE3;e, sempre que ia me deixar na casa dos meus av&#xF3;s antes de ir trabalhar, sa&#xED;a com os olhos cheios de l&#xE1;grimas. Minha v&#xF3;, como forma de aliviar o peso da despedida nossa de cada dia, brincava dizendo: &#x201C;olha o r&#xED;mel, nada de choro&#x201D;. Super m&#xE3;e do tipo ultrazelosa, s&#xF3; assentia porque sabia que eu estaria em boas m&#xE3;os: meus av&#xF3;s e m&#xE3;e B&#xE1; cuidariam bem de mim. Isso inevitavelmente me leva a pensar em como as coisas seriam em um cen&#xE1;rio diferente: se m&#xE3;e B&#xE1; tivesse tido filhos, teria, como minha m&#xE3;e teve, algu&#xE9;m de confian&#xE7;a com quem deix&#xE1;-los para ir trabalhar? N&#xE3;o ter tido filhos, no caso de m&#xE3;e B&#xE1;, foi uma escolha? Se os tivesse tido, poderia oferecer-lhes tudo do bom e do melhor? O nome disso? Privil&#xE9;gio de classe e ra&#xE7;a.&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem, voltemos &agrave; Guarapari. Enquanto estava l&aacute;, m&atilde;e B&aacute; podia usufruir de dias mais tranquilos junto aos seus, no Rio, sua vida era agitada e &aacute;rdua. Em certa medida, contribu&iacute; para isso, j&aacute; que era uma crian&ccedil;a que demandava muitos cuidados. Desde que nasci, m&atilde;e B&aacute; cuidou de mim, al&eacute;m de fazer de tudo na casa dos meus av&oacute;s. Ela era a principal respons&aacute;vel por manter a casa limpa, as coisas em ordem e nos alimentar. A rotina pesada, contudo, n&atilde;o podou seus sonhos. Incentivada por minha av&oacute; e pelo trauma que vivera com sua irm&atilde;, que at&eacute; hoje n&atilde;o teve oportunidades de aprender a ler e escrever, resolveu estudar. Testemunhei sua luta de perto e sinceramente n&atilde;o sei como ela dava conta de tudo. Entre o final dos anos 70 e a primeira metade dos anos 80, m&atilde;e B&aacute; fez Telecurso Segundo Grau. Estudava pela TV e tirava as d&uacute;vidas com a minha av&oacute;. Guerreira, demorou quase uma d&eacute;cada para se formar, mas conseguiu concluir o segundo grau. Quando lembro disso, penso no qu&atilde;o injusto &eacute; o <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Discurso&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;O conceito de discurso &eacute; empregado diferentemente, em variadas tradi&ccedil;&otilde;es, a depender da filia&ccedil;&atilde;o a &aacute;reas de estudo e correntes de pensamento. Este verbete reconstr&oacute;i duas conhecidas no&ccedil;&otilde;es de discurso, segundo Michel Foucault, no campo hist&oacute;rico-filos&oacute;fico, e James Paul Gee, nos Estudos da Linguagem.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;A no&ccedil;&atilde;o de discurso em Michel Foucault ocupa um lugar central em sua filosofia e est&aacute; diretamente ligada &agrave;s suas an&aacute;lises sobre saber e poder. Em vez de entender o discurso apenas como texto oral ou escrito, Foucault o concebe como um conjunto de pr&aacute;ticas que produzem os objetos de que falam &ndash; coisas, ideias, pessoas, eventos. Ou seja, o discurso n&atilde;o apenas descreve o chamado real: ele o constitui. O discurso &eacute;, assim, uma pr&aacute;tica produtiva que estrutura o campo das possibilidades de exist&ecirc;ncia, organizando e regulando o que pode ser dito, percebido, vivenciado, pensado e tomado como verdade em determinadas conjunturas hist&oacute;ricas. Desse modo, o discurso diz respeito a redes complexas de conhecimento que envolvem saberes e subjetividades atravessados por regimes de poder. Entretanto, o equil&iacute;brio entre esses eixos de for&ccedil;a &eacute; sempre inst&aacute;vel, pois, para Foucault, onde h&aacute; poder, h&aacute; resist&ecirc;ncia. Portanto, apesar da inseparabilidade entre discurso, sujeito, saber e poder, vazamentos, transgress&otilde;es e transforma&ccedil;&otilde;es podem sempre ocorrer.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;J&aacute; o linguista James Paul Gee diferencia discurso e Discurso, grafados com &amp;quot;d&rdquo; min&uacute;sculo e &amp;quot;D&rdquo; mai&uacute;sculo, respectivamente. O primeiro diz respeito &agrave; atividade discursiva, na qual empregamos signos lingu&iacute;sticos e n&atilde;o lingu&iacute;sticos em nossas intera&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias. Trata-se de uma perspectiva sociolingu&iacute;stica e pragm&aacute;tica que focaliza a linguagem em uso nos diferentes contextos da vida social e os sentidos ali produzidos. As pr&aacute;ticas linguageiras, por&eacute;m, n&atilde;o ocorrem isoladamente. Elas resultam de m&uacute;ltiplas combina&ccedil;&otilde;es integradas de modos de comunicar, interagir, pensar, perceber, crer, valorar e sentir, que constituem um tipo espec&iacute;fico de identidade socialmente reconhec&iacute;vel. Gee nomeia esse fen&ocirc;meno &amp;quot;Discursos&rdquo; (com &amp;quot;D&rdquo; mai&uacute;sculo), isto &eacute;, sistemas de ideias e modos de pensamento que orientam a forma como performamos e utilizamos signos, palavras, imagens e outros recursos &mdash; o discurso (com &amp;quot;d&rdquo; min&uacute;sculo). Discurso e discurso s&atilde;o, por conseguinte, indissoci&aacute;veis, o que permite abordar o d\/Discurso como pr&aacute;tica social que define e orienta paradigmas socioculturais.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Pode-se articular, ent&atilde;o, um ponto em comum entre James Paul Gee e Michel Foucault: o discurso n&atilde;o &eacute; apenas linguagem, mas configura-se como pr&aacute;tica social produtora de identidades, posi&ccedil;&otilde;es de sujeito e rela&ccedil;&otilde;es de poder.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;strong&amp;gt;Para saber mais ...&amp;lt;\/strong&amp;gt;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Foucault, Michel. &amp;lt;em&amp;gt;A ordem do discurso: Aula inaugural no Coll&egrave;ge de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970.&amp;lt;\/em&amp;gt; S&atilde;o Paulo: Edi&ccedil;&otilde;es Loyola, 1996. Tradu&ccedil;&atilde;o de Laura Fraga de Almeida Sampaio.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Foucault, Michel. As forma&ccedil;&otilde;es discursivas. &amp;lt;em&amp;gt;A arqueologia do saber&amp;lt;\/em&amp;gt;. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria, 2008.Gee, James Paul&amp;lt;strong&amp;gt;.&amp;lt;\/strong&amp;gt;&amp;lt;em&amp;gt;An Introduction to Discourse Analysis: Theory and Method.&amp;lt;\/em&amp;gt; 4&ordf; ed. London; New York: Routledge, 2014.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O): &amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/o-terrorismo-no-discurso\/&amp;quot;&amp;gt;O terrorismo no discurso&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\"  href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/discurso\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>discurso<\/a> sobre a meritocracia. Como algu&eacute;m que trabalhava de segunda a s&aacute;bado e quase sempre assistia &agrave;s aulas com uma crian&ccedil;a nos bra&ccedil;os (euzinha), poderia render o mesmo que gente como eu, que tinha como &uacute;nica obriga&ccedil;&atilde;o estudar, via suas necessidades serem saciadas a tempo e a hora, contava com livros e material escolar de primeira, al&eacute;m de estudar numa boa escola? Sim, vou repetir o que j&aacute; disse uma e outra vez neste texto: esse &eacute; mais um dos efeitos materiais do privil&eacute;gio de classe e ra&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois &#xE9;! Desde logo, a rotina de m&#xE3;e B&#xE1; era t&#xE3;o alborotada como o meu prontu&#xE1;rio m&#xE9;dico. Eu n&#xE3;o dava descanso: tinha febre com frequ&#xEA;ncia e muita dor de garganta. At&#xE9; operarem as minhas am&#xED;dalas (demoraram uma eternidade para identificar o problema), roubei muitas noites de sono aos meus pais e &#xE0; m&#xE3;e B&#xE1;. Fui, sem lugar &#xE0; d&#xFA;vida, uma das respons&#xE1;veis por m&#xE3;e B&#xE1; ter demorado tanto em terminar seus estudos e, claro, luzir olheiras constantemente. M&#xE3;e B&#xE1;, apesar disso e de outros pesares, continuou estudando e logo se tornaria auxiliar de enfermagem. Minha av&#xF3; novamente a apoiou e, enquanto sua sa&#xFA;de permitiu, se encarregava de coisas da casa para que M&#xE3;e B&#xE1; pudesse estudar, desta vez presencialmente. Mal sab&#xED;amos que, meses depois, os conhecimentos adquiridos por m&#xE3;e B&#xE1; seriam decisivos para que ela tivesse condi&#xE7;&#xF5;es de ajudar minha av&#xF3; a encarar uma nova luta que come&#xE7;ava se desenhar. Diagnosticada com c&#xE2;ncer de mama, vov&#xF3; n&#xE3;o podia ser operada porque tinha problemas card&#xED;acos. Teria que fazer quimioterapia no hospital e se tratar em casa. Se m&#xE3;e B&#xE1; cuidou de mim como quem cuida de uma filha, da minha av&#xF3; ela cuidou como quem cuida de uma m&#xE3;e. Quando m&#xE3;e B&#xE1; precisou, tratamos de estar &#xE0; altura de tudo o que ela havia feito por n&#xF3;s, mas quantas cuidadoras, em nosso pa&#xED;s, quando precisam ser cuidadas, recebem cuidados t&#xE3;o dignos como aqueles que dedicam aos patr&#xF5;es? Sim, esta &#xE9; mais uma face do privil&#xE9;gio de classe e ra&#xE7;a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo esfor&#xE7;o, entretanto, n&#xE3;o foi capaz de impedir a partida de vov&#xF3;. Eu tinha sete anos quando n&#xF3;s a perdemos. M&#xE3;e B&#xE1; e eu ficamos ainda mais pr&#xF3;ximas. Eu a adorava, passava muito tempo com ela. Chorava quando ela me deixava na escola e pulava no seu colo quando ela ia me buscar. Nos meus &#xE1;lbuns infantis, h&#xE1; v&#xE1;rias fotos de n&#xF3;s duas juntas. Grande parte dos registros fotogr&#xE1;ficos de m&#xE3;e B&#xE1; correspondem ao per&#xED;odo em que ela viveu com a gente. Desconhe&#xE7;o se ela teria uma &#x201C;exist&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica&#x201D; pr&#xE9;via. Dentre tantas fotos (n&#xE3;o &#xE9;ramos de economizar no clique), h&#xE1; uma que me traz uma lembran&#xE7;a bem especial: a de n&#xF3;s duas no banheiro diante do espelho. Nela, m&#xE3;e B&#xE1; aparece rindo com a escova na m&#xE3;o, enquanto eu me escondo debaixo de seus cachos. Ela adorava essa foto, que al&#xE9;m de estar no &#xE1;lbum, figurava na sua mesinha de cabeceira. Ela me contava que sempre que ia me pentear, eu dizia que queria troc&#xE1;ssemos de cabelo e de cor. Pedia para que pintasse meu cabelo de preto e me deitava de frente para o sol para ficar &#x201C;bronzeada&#x201D; como ela. &#x201C;Pode isso, seu Nilson?&#x201D;, perguntava ao meu av&#xF4;, enquanto se voltava para mim e dizia: &#x201C;e eu l&#xE1; sou bonita? S&#xF3; voc&#xEA; me acha bonita!&#x201D;. &#xC0; &#xE9;poca, n&#xE3;o dei nenhuma import&#xE2;ncia &#xE0;quela afirma&#xE7;&#xE3;o, mas hoje ela me d&#xE1; muito o que pensar. Por que M&#xE3;e B&#xE1; n&#xE3;o se achava bonita? Teria isso alguma rela&#xE7;&#xE3;o com o fato de que, apesar de mais de 50% da popula&#xE7;&#xE3;o brasileira ser negra, at&#xE9; bem pouco tempo eram raras, no imagin&#xE1;rio coletivo do pa&#xED;s em que supostamente impera a democracia racial, imagens de mulheres negras com as quais M&#xE3;e B&#xE1; poderia se identificar? Ou talvez isso tivesse que ver com o fato de que poucas vezes sua beleza tenha sido elogiada e,&#xA0;<a href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossario\/?g=performativo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">performativamente<\/a>, sentida? Se o dizer est&#xE1; indelevelmente conectado ao fazer, que efeitos o n&#xE3;o dito produz? Soma-se a isso uma outra quest&#xE3;o: at&#xE9; esta parte do texto, eu n&#xE3;o havia explicitado qual a cor de m&#xE3;e B&#xE1;, mas aposto que voc&#xEA;, cara\/o leitor\/a, j&#xE1; desconfiava de qual era, n&#xE9;? Talvez porque, no Brasil, a pobreza\/o preconceito\/a m&#xE3;o de obra mais barata\/o analfabetismo\/a simplifica&#xE7;&#xE3;o defectiva &#x2013; e paro por aqui porque a lista parece intermin&#xE1;vel &#x2013; t&#xEA;m cor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra coisa da qual sempre me lembro quando penso em m&#xE3;e B&#xE1; era o seu jeito subserviente e paciente de ser, impregnado de boa f&#xE9;. Lembro das muitas ocasi&#xF5;es em que a acompanhei ao m&#xE9;dico. Quantas n&#xE3;o foram as vezes em que as atendentes ignoravam sua presen&#xE7;a e\/ou deixavam outras pessoas passarem na frente? Com frequ&#xEA;ncia n&#xE3;o reconheciam seu status de grupo priorit&#xE1;rio &#x2013; por conta da idade &#x2013; e eu tinha de falar grosso. M&#xE3;e B&#xE1; ficava envergonhada quando eu erguia a voz e tentava fazer valer seus direitos. Timidamente, dizia: &#x201C;Clarissinha, n&#xE3;o fa&#xE7;a isso. Eu n&#xE3;o me importo de esperar&#x201D;. Eu chegava a me enfurecer mais com ela do que com as atendentes que a desrespeitavam, muitas delas, negras tamb&#xE9;m.&#xA0; Por for&#xE7;a do h&#xE1;bito que a docilizou, m&#xE3;e B&#xE1; evitava enfrentamentos. Para mim, vivenciar epis&#xF3;dios como este deixavam claro que, em nosso pa&#xED;s, a produ&#xE7;&#xE3;o de corpos d&#xF3;ceis &#xE9; racializada.&#xA0;&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se at&#xE9; aqui a minha prosa se ancorou na repeti&#xE7;&#xE3;o (perdi a conta de quantas vezes falei em &#x201C;privil&#xE9;gio de classe e ra&#xE7;a&#x201D;), devo dizer que, ao tentar fazer jus &#xE0;s quest&#xF5;es abordadas, n&#xE3;o tive escapat&#xF3;ria. Relembrar momentos da trajet&#xF3;ria de m&#xE3;e B&#xE1; deixa algo bem claro para mim: em &#x201C;nosso&#x201D; pa&#xED;s &#x2013; e aqui uso o pronome possessivo na primeira pessoa do singular entre aspas porque, obviamente, ele &#xE9; mais de uns que de outros &#x2013;, os privil&#xE9;gios de classe (m&#xE9;dia\/alta) e ra&#xE7;a (branca) caminham juntos. Logo, numa sociedade de heran&#xE7;a escravocrata como a nossa, n&#xE3;o &#xE9; casualidade que as pessoas que pertencem &#xE0;s classes mais baixas, muitas das quais vivem em situa&#xE7;&#xE3;o de mis&#xE9;ria ou extrema pobreza, seja negra.&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racismo, no Brasil, de t&#xE3;o estruturado e estruturante, faz com que sequer o percebamos nessas pequenas pr&#xE1;ticas cotidianas. De t&#xE3;o automatizado em gestos de invisibiliza&#xE7;&#xE3;o e flagrante desrespeito, como os que narro, e em tantas outras experi&#xEA;ncias rotineiramente vivenciadas, atos racistas deixam de causar-nos estranheza. De maneira sorrateira e pervasiva, o racismo se embrenha em nossa sociedade e se naturaliza. Por for&#xE7;a da repeti&#xE7;&#xE3;o, torna-se t&#xE3;o habitual que, por mais absurdo que seja, deixa de surpreender. Soma-se a isso uma invers&#xE3;o que vem a reboque: para grande parte da popula&#xE7;&#xE3;o, o que gera estranhamento n&#xE3;o &#xE9; a frequ&#xEA;ncia com que o racismo se materializa no dia a dia, mas sim o fato de alguns se rebelarem contra ele.&#xA0;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez s&#xF3; haja uma coisa que, de maneira igualmente sorrateira e pervasiva, esteja t&#xE3;o naturalizada em nossa sociedade como o&#xA0;<a href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossario\/?g=racismo+cotidiano\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a class=\"glossaryLink\" aria-describedby=\"tt\" data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Racismo Cotidiano&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Defini&#xE7;&#xE3;o que se refere ao padr&#xE3;o cont&#xED;nuo de abuso e desvaloriza&#xE7;&#xE3;o a que pessoas racializadas s&#xE3;o expostas diariamente. Grada Kilomba, artista interdisciplinar, escritora e te&#xF3;rica, apresentou esse conceito no livro &amp;lt;em&amp;gt;Mem&#xF3;rias da Planta&#xE7;&#xE3;o&amp;lt;\/em&amp;gt; (2019). Tal forma de racismo &#xE9; composta por palavras, olhares, gestos, discursos, a&#xE7;&#xF5;es e imagens que projetam sobre&amp;amp;nbsp; o sujeito negro e outras identidades racializadas tabus que a sociedade branca n&#xE3;o reconhece em si mesma e atribui &#xE0;queles que s&#xE3;o constru&#xED;dos como outridade. Trata-se de algo&amp;amp;nbsp; elaborado e profundo, que faz com que s sujeitos negros sejam vistos como agressivos, for&#xE7;a bruta ou hiperssexualizados, o que, por sua vez, &#xE9; fruto do modo como a racializa&#xE7;&#xE3;o destes sujeitos os prefigura identitariamente ao associ&#xE1;-los &#xE0;&amp;amp;nbsp; infantiliza&#xE7;&#xE3;o, primitiviza&#xE7;&#xE3;o, inciviliza&#xE7;&#xE3;o, animaliza&#xE7;&#xE3;o e erotiza&#xE7;&#xE3;o. O Racismo cotidiano, em suma, dificulta que pessoas negras existam enquanto iguais, pois a branquitude est&#xE1; constantemente relegando-as &#xE0; personifica&#xE7;&#xE3;o de aspectos reprimidos.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O) em&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/memorias-do-bbb20-episodios-de-racismo-cotidiano\/&amp;quot;&amp;gt;Mem&#xF3;rias do BBB20: epis&#xF3;dios de racismo cotidiano&amp;lt;\/a&amp;gt;;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/&amp;quot;&amp;gt;M&#xE3;e B&#xE1; e os privil&#xE9;gios da branquitude&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\" href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/racismo-cotidiano\/\" data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]' tabindex=\"0\" role=\"link\">racismo cotidiano<\/a>: os privil&#xE9;gios da&#xA0;<a href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossario\/?g=branquitude\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Branquitude&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;O termo branquitude, de acordo com Maria Aparecida Silva Bento, abrange tanto os tra&ccedil;os da identidade social de pessoas classificadas como brancas, como as hierarquias que essa categoria identit&aacute;ria projeta e suas implica&ccedil;&otilde;es socioecon&ocirc;micas, culturais e pol&iacute;ticas. O termo faz alus&atilde;o ao pacto narc&iacute;sico e t&aacute;cito que garante privil&eacute;gios das mais diversas ordens &agrave;queles\/as que s&atilde;o enquadrados em tal identidade social e nos recorda que todas as outras ra&ccedil;as s&atilde;o constru&iacute;das em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; branca. Sobre as pessoas lidas como brancas n&atilde;o recaem os marcadores sociais da diferen&ccedil;a precisamente porque s&atilde;o tomados como par&acirc;metro. O &lsquo;desmarcamento&rsquo; e o sil&ecirc;ncio que cercam a branquitude contribuem para a manuten&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gios, ao mesmo tempo que faz com que eles passem despercebidos. Como afirma James Baldwin, &amp;quot;o branco&rdquo; &eacute; a met&aacute;fora do poder. N&atilde;o bastaria, portanto, reconhecer as desigualdades raciais, nem sinalizar o qu&atilde;o racistas certas pr&aacute;ticas podem ser. H&aacute; de se olhar para o racismo estrutural e estruturante que est&aacute; embrenhado na sociedade brasileira sem perder de vista os privil&eacute;gios da branquitude. Essas s&atilde;o duas faces da mesma moeda.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O): &amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/&amp;quot;&amp;gt;M&atilde;e B&aacute; e os privil&eacute;gios da branquitude&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\"  href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/branquitude\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>branquitude<\/a><\/a>. S&#xE3;o, de fato, duas faces da mesma moeda. Quando olho para tr&#xE1;s e penso em m&#xE3;e B&#xE1;, considerando todas as quest&#xF5;es aqui levantadas, n&#xE3;o h&#xE1; como ignor&#xE1;-los. Tais privil&#xE9;gios se fazem presentes em tudo. O fato de ser uma pessoa branca e de classe m&#xE9;dia, sempre me trouxe in&#xFA;meras facilidades. Estudei em boas escolas, nunca faltou comida no meu prato, morei em apartamentos confort&#xE1;veis, n&#xE3;o tive que trabalhar enquanto cursava o segundo grau. Pelo contr&#xE1;rio, meus pais preenchiam meu tempo ocioso com as mais diferentes atividades (cursos de idiomas, pr&#xE1;tica de esportes). Quando tinha dificuldade em alguma mat&#xE9;ria, contratavam professores particulares. Em contrapartida, m&#xE3;e B&#xE1;, por conta de sua cor e classe social, teve uma jornada muito mais tortuosa, jornada esta que eu acompanhei de perto e que me faz enxergar o qu&#xE3;o importante &#x2013; e urgente &#x2013; &#xE9; desconstruir certos mitos, como o da democracia racial, e discursos, como o da meritocracia. Para logr&#xE1;-lo, h&#xE1;, desde logo, um longo caminho a ser trilhado. Mas, como narrar &#xE9; um&#xA0;<a href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossario\/?g=performativo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ato <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Performativo&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;O termo performativo alude &agrave; capacidade que a linguagem tem de performar\/desempenhar a&ccedil;&otilde;es. Este car&aacute;ter ativo do ato de fala, al&eacute;m de apontar para uma teoria da a&ccedil;&atilde;o, p&otilde;e em xeque uma concep&ccedil;&atilde;o representacional de linguagem: n&oacute;s fazemos coisas com a linguagem. Quando a empregamos, n&atilde;o nos limitamos a descrever estados de coisas ou a representar uma realidade previamente dada. O fil&oacute;sofo da linguagem, John Langshaw Austin, prop&ocirc;s a no&ccedil;&atilde;o de ato de fala peformativo, sinalizando como palavras, ao serem enunciadas, empreendem fazeres. Cita, dentre outros exemplos, o da aposta e o da formaliza&ccedil;&atilde;o de um matrim&ocirc;nio. Quando algu&eacute;m afirma: &amp;quot;eu aposto em um determinado n&uacute;mero&rdquo;, n&atilde;o est&aacute; apenas descrevendo ou constatando algo, mas sim concretizando uma aposta. O mesmo sucede quando algu&eacute;m, investido de poder para tal, celebra um casamento. Quando a frase &amp;quot;eu vos declaro unidos em matrim&ocirc;nio&rdquo; &eacute; enunciada, esta produz efeitos materiais concretos: daquele instante em diante, aquelas pessoas se tornam c&ocirc;njuges. Austin sugere que todos os atos de fala, at&eacute; aqueles que parecem descrever uma dada realidade, como &amp;quot;o c&eacute;u est&aacute; nublado&rdquo;, s&atilde;o performativos, ou seja, desempenham algum tipo de a&ccedil;&atilde;o. Ao dizer que o c&eacute;u est&aacute; nublado, por exemplo, n&atilde;o estamos somente descrevendo-o, mas afirmando algo. Desse modo, dizer sempre implica um fazer.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O) em&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/cha-de-revelacao-viral-uma-reflexao-sobre-o-dispositivo-da-saude\/&amp;quot;&amp;gt;Ch&aacute; de revela&ccedil;&atilde;o viral: uma reflex&atilde;o sobre o dispositivo da sa&uacute;de&amp;lt;\/a&amp;gt;;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/dilma-rousseff-na-fogueira-midiatica\/&amp;quot;&amp;gt;Dilma Rousseff na fogueira midi&aacute;tica&amp;lt;\/a&amp;gt;;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/&amp;quot;&amp;gt;M&atilde;e B&aacute; e os privil&eacute;gios da branquitude&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list-item --&amp;gt;&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:list --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\"  href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/performativo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>performativo<\/a><\/a>, ou seja, uma forma de agir no mundo social, espero que este texto, de algum modo, possa contribuir para o debate acerca dos privil&eacute;gios da <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"&lt;div class=glossaryItemTitle&gt;Branquitude&lt;\/div&gt;&lt;div class=glossaryItemBody&gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;O termo branquitude, de acordo com Maria Aparecida Silva Bento, abrange tanto os tra&ccedil;os da identidade social de pessoas classificadas como brancas, como as hierarquias que essa categoria identit&aacute;ria projeta e suas implica&ccedil;&otilde;es socioecon&ocirc;micas, culturais e pol&iacute;ticas. O termo faz alus&atilde;o ao pacto narc&iacute;sico e t&aacute;cito que garante privil&eacute;gios das mais diversas ordens &agrave;queles\/as que s&atilde;o enquadrados em tal identidade social e nos recorda que todas as outras ra&ccedil;as s&atilde;o constru&iacute;das em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; branca. Sobre as pessoas lidas como brancas n&atilde;o recaem os marcadores sociais da diferen&ccedil;a precisamente porque s&atilde;o tomados como par&acirc;metro. O &lsquo;desmarcamento&rsquo; e o sil&ecirc;ncio que cercam a branquitude contribuem para a manuten&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gios, ao mesmo tempo que faz com que eles passem despercebidos. Como afirma James Baldwin, &amp;quot;o branco&rdquo; &eacute; a met&aacute;fora do poder. N&atilde;o bastaria, portanto, reconhecer as desigualdades raciais, nem sinalizar o qu&atilde;o racistas certas pr&aacute;ticas podem ser. H&aacute; de se olhar para o racismo estrutural e estruturante que est&aacute; embrenhado na sociedade brasileira sem perder de vista os privil&eacute;gios da branquitude. Essas s&atilde;o duas faces da mesma moeda.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&amp;lt;!-- wp:paragraph --&amp;gt;Confira o conceito em CONTXT(O): &amp;lt;a href=&amp;quot;https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/novo\/mae-ba-e-os-privilegios-da-branquitude\/&amp;quot;&amp;gt;M&atilde;e B&aacute; e os privil&eacute;gios da branquitude&amp;lt;\/a&amp;gt;.&amp;lt;br\/&amp;gt;&amp;lt;!-- \/wp:paragraph --&amp;gt;&lt;\/div&gt;\"  href=\"https:\/\/poslaplicada.letras.ufrj.br\/contxt\/glossary\/branquitude\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>branquitude<\/a> e para a import&acirc;ncia de se combater racismo, estrutural e estruturante, de forma mais efetiva.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-nd\/4.0\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i.creativecommons.org\/l\/by-nc-nd\/4.0\/88x31.png\" alt=\"Creative Commons License\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">This work is licensed under a <a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-nd\/4.0\/\">Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M&#xE3;e B&#xE1; morreu no dia 11 de fevereiro de 2020. 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