
Depois do recorde de audiência em 2020 e de uma edição cheia de polêmicas, a expectativa para a estreia do Big Brother Brasil 2021 estava alta neste verão. Entre famosos (Camarote) e anônimos (Pipoca), os participantes finalmente foram revelados e esta passa a ser a edição do programa de mais longa duração: 100 dias de confinamento na casa mais vigiada do país.
O jogo se iniciou no dia 25 de janeiro e, nesses três meses, presenciamos atritos, formação de alguns casais e o primeiro beijo gay do reality. Um dos protagonistas foi Gilberto (ou Gil, como é chamado na casa), que nasceu na cidade de Jaboatão, em Pernambuco, tem 29 anos e segue carreira acadêmica. Antes de começar o BBB, Gil aguardava pelo resultado do processo de seleção para cursar PhD nos Estados Unidos (e foi aprovado). Suas pesquisas, motivadas pelo pai, abordam a relação entre o Estado e as ações de violência no mercado das drogas.
Outro que se destacou foi Lucas Koka Penteado, que nasceu em São Paulo, tem 24 anos e é reconhecido pelas batalhas de rima. Lucas também integra movimentos culturais, nos quais une música, poesia e protesto. Além disso, é ator, e participou da novela “Malhação – Viva a Diferença”, exibida originalmente em 2017.
Ao longo da madrugada da primeira festa de fevereiro, com temática indiana e participação da banda Barões da Pisadinha, pudemos mergulhar na cultura, gastronomia e animação dos participantes vestidos a caráter, além de assistirmos, pela primeira vez, a um beijo entre dois homens no BBB.
O que era para ser apenas uma demonstração de afeto, teve grande movimentação nas redes sociais a partir do momento em que outros/as participantes questionaram, inviabilizaram e taxaram o beijo como autopromoção por parte de Lucas, que já vinha sofrendo ataques racistas e tortura psicológica dentro do programa. Tais acusações nos forçam a refletir sobre “sair do armário”.
O fato de Lucas não ter falado sobre sua bissexualidade antes e o modo como sua vulnerabilidade foi exposta no programa reforçam que essa é uma decisão que deve ser tomada exclusivamente pela própria pessoa, pois em pleno ano de 2021, declarar-se gay/lésbica/bissexual/trans ainda pode acarretar em violência familiar, expulsão de casa, perda de amizades, violência nas ruas e até falta de oportunidades de trabalho, levando à falta de autoestima e/ou questionamentos existenciais profundos, como o próprio Lucas disse, “tudo que eu faço agora é um erro. Se eu for eu, é um erro”.
Os questionamentos e a insistência em querer (in)validar o afeto de Gil e Lucas partiram inclusive de Lumena, que se autoidentifica como mulher lésbica. Isso reforça que muitos espaços oprimem pessoas bissexuais e que nem mesmo a comunidade LGBTQIA+, que deveria criar um ambiente de refúgio e acolhimento para aquelas/es que a letra B da sigla abarca, está isenta de cometer tais violências.

Infelizmente, isso é reflexo de uma sociedade que enxerga a bissexualidade como fase, curiosidade e/ou indecisão. Após tornar pública sua bissexualidade, a pressão e as humilhações foram tantas que Lucas abandonou a casa dizendo “eu sou bissexual. Eu sou uma pessoa que ama quem me ama”. Esse controle sobre as práticas sexuais alheias e a necessidade dicotomizante de definir espécies (homo ou hetero), segundo Foucault, constitui os dois pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida: as disciplinas do corpo e as regulações da população.
Em sua obra História da Sexualidade – a Vontade de Saber, Foucault observou que mecanismos específicos do saber e poder centrados no sexo produziram discursos normativos acerca da sexualidade das mulheres, dos casais, demarcando as “perversões sexuais”, especialmente a homossexualidade. Isto é, para Foucault, somos controlados e normatizados por múltiplos processos de poder que ditam o que é certo ou errado, permitido ou proibido, adequado ou inadequado em relação ao corpo, prazer, desejo, sexo etc.
Em relação a isso, quando participantes pressionam Lucas e insinuam que a performance da bissexualidade dele é fake dizendo “eu não quero ser palco para a sua performance” e “você não é único, você não é especial. […] Não adianta agenciar pauta aqui dentro, tem outras pessoas iguais a você. […] Você está agenciando uma pauta coletiva, em prol de um B.O. que é seu, individual”, corroboram para a manutenção de uma norma (cis-)heterossexual e de todos os processos de violência que ela carrega.
A cisgeneridade e a heterossexualidade funcionam como “o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas”, ou seja, esses marcadores identitários de gênero e sexualidade, respectivamente, abarcam “todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é ‘natural’, desejável, única”, como afirma Silva1. Ao falarmos de qualquer sexualidade diferente da heterossexual estamos mencionando sexualidades que não se enquadram na norma. A bissexualidade ou a autoidentificação como bissexual, conforme a ativista Robyn Ochs afirma, é reconhecer em si mesmo o potencial para sentir atração de forma sexual ou romântica por pessoas de mais de um gênero ou sexo, não necessariamente da mesma forma, tempo ou nível.
Recentemente, o termo voltou a ser mencionado quando João, outro participante gay do reality, ao conversar com Juliette, contou que seu namorado Igor é um homem bissexual e que o mesmo já teve sua orientação sexual invalidada. Sobre isso, em diálogo com Foucault, Louro2 afirma que a regulação das sexualidades, ou a norma, como a autora menciona, “não emana de um único lugar, não é enunciada por um soberano, mas, em vez disso, está em toda parte. Expressa-se por meio de recomendações repetidas e observadas cotidianamente, que servem de referência a todos. Por essa razão, a norma se faz penetrante e capaz de se ‘naturalizar’”. Desse modo, a bissexualidade como uma orientação sexual não-normativa passa a ser alvo de violências por representar a diferença.
Na casa do BBB, essas violências bifóbicas foram televisionadas por 11 câmeras e exibidas no horário nobre da programação da TV Globo como forma de entretenimento, levando às mais diversas reações do público. Rodolffo, um dos participantes que mais se manifestou contra a bissexualidade de Lucas, dizendo inclusive que a situação do beijo com Gil foi “para causar”, em momentos mais recentes do programa esteve envolvido em situação de homofobia ao recriminar o fato de Fiuk usar vestido, chegando a afirmar que “no mundo de hoje [existe] um tanto de mimimi pra cima e pra baixo”, referindo-se às discussões sobre identidades.

Na vida real, a bifobia se materializa sem que as pessoas percebam, como uma consequência dos processos de controle dos corpos e das sexualidades. Como afirma Louro, a normatividade acontece de forma “onipresente, sempre presumida, e isso a torna, paradoxalmente, invisível. Não é preciso mencioná-la. Marcadas serão as identidades que dela diferirem”. Seja em um reality show ou na vida cotidiana, é importante nos atentarmos para os modos como contribuímos com a produção, manutenção e perpetuação da norma e de estigmas sobre as sexualidades. A mudança social só será possível se acompanhada de reflexão, compreensão e respeito às diferenças.
1SILVA, Tomas Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais /Tomaz Tadeu da Silva (org.), Stuart Hall, Kathryn Woodward. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 73-102.
2LOURO, G. L. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pro-Posições, v. 19, n. 2, 2008, p. 17-23. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2.pdf.

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.