Por Clara Cristina Ribeiro Nogueira (Extensão/UFRJ)
Não é novidade o fato de que a escrita de diários pessoais acompanha a humanidade há séculos, assumindo diferentes formas e significados conforme as transformações sociais e históricas de cada época. Em sua versão mais tradicional, os adeptos dessa prática se debruçam sobre uma folha de papel e despejam os conteúdos íntimos de suas subjetividades, estabelecendo uma relação pessoal e clandestina com o registro desenvolvido. Essa paixão está refletida em inúmeras obras literárias que discorrem sobre o processo de produção. Entregando uma espécie de metalinguagem, elas comentam o próprio texto. Esse é o caso da escritora Sylvia Plath. Nascida em 1932, Plath publicou um romance consagrado, dedicou-se a uma produção poética intensa e foi, claro, uma mulher apaixonada pelos seus diários. Em uma edição publicada pela editora Biblioteca Azul, é possível ler os seus cadernos de crônicas pessoais de 1950 até 1962. Para ela, a função de uma documentação íntima constante era a de retomar, de alguma forma, o controle sobre a sua própria narrativa. Os diários pareciam ser um espaço de elaboração emocional e de experimentação, influenciando, inclusive, a sua própria escrita literária. Ela é, assim, um exemplo claro de alguém que fez bom uso da observação minuciosa de si.
Ao analisar as ressignificações dessa prática, percebi que há uma forma contemporânea de realizá-la, marcada pelos avanços tecnológicos que imperam na atualidade. Falo aqui sobre o surgimento de práticas habituais de compartilhamento de personalidades midiáticas, que, ao não se comprometerem com a preservação de sua intimidade, registram suas vidas no espaço das redes sociais. Essa maneira de documentar e expor, nitidamente distanciada dos diários de outros tempos, reflete um excesso de visibilidade que transforma experiências privadas em conteúdo de consumo público.
Um exemplo expressivo desse fenômeno pode ser observado na trajetória de Virgínia Fonseca, influenciadora digital com mais de 50 milhões de seguidores no Instagram, que construiu grande parte de sua presença midiática por meio da exposição diária de sua rotina. Em seus perfis nas redes sociais, momentos familiares, viagens, compromissos profissionais, celebrações e até acontecimentos banais do cotidiano são compartilhados com milhões de seguidores em tempo real. Isso é muito diferente do diário tradicional, que se destinava à proteção de memórias e reflexões pessoais. As anotações de bordo atuais parecem orientar-se pela lógica da audiência, do engajamento e dos excessos, à medida que operam no acúmulo de distribuições de intimidade ao longo de todo o dia. A privacidade transformada em produto se entrelaça às inúmeras publicidades embutidas nessa partilha diária. Apesar de ser um modelo representativo desse movimento, Virgínia não é a única. Basta pensar em como pessoas comuns, que não são necessariamente figuras midiáticas, também compartilham suas atividades em vários momentos do dia em seus perfis no TikTok, Instagram ou X, produzindo verdadeiros periódicos ao mesmo tempo pessoais, virtuais e públicos. Neles não há compromisso com a confidencialidade, pois quanto maior o número de visualizações, melhor. Isso nos leva a questionar: qual seria o propósito de estimular que pessoas bisbilhotem nossas vidas? Como bem disse Sylvia Plath, é impossível “capturar a vida” se a gente não mantém diários. Sim, mas onde fica a clandestinidade nesse cenário? Essa parece não ser uma questão para os atuais sujeitos da escrita digital.
Com isso em mente, comecei a questionar: O que acontece com os diários físicos hoje, numa realidade cada vez mais tecnológica? Como leitora de Sylvia Plath e adepta dos diários, me preocupa que essa prática seja ultrapassada por outras formas de registro. Há algo de singular no ato de dedicar um momento específico para refletir, por meio da escrita à mão, a respeito de algum movimento interno. Nos últimos tempos, passei a notar o surgimento de uma onda de conteúdos no YouTube feitos por jovens, como eu, incentivando a produção de diários tradicionais, materiais e manuais como uma alternativa ao uso desenfreado das redes sociais. Considerei o fenômeno interessante e passei a pensar na escrita de diários reinventada como uma oposição aos excessos da web. Estes são bem exemplificados pela figura de criadores de conteúdo que baseiam a sua produção em uma exposição extrema de si, além de usuários comuns que desenvolveram o hábito de registrar a vida publicamente. Dessa forma, percebo que a retomada da escrita diarística funciona como um movimento recente de recriação de um espaço de intimidade resistente ao tempo e às novas tecnologias digitais.
Um dos canais do YouTube que me chamou a atenção foi o da criadora de conteúdo Annie Manora, jovem estadunidense com pouco mais de 19 mil seguidores na plataforma. Em seus vídeos, ela se dedica a criar uma série de mensagens de voz introspectivas e pessoais, com linguagem íntima e bastante conversacional. A criadora produz, assim, um diário virtual que vai na contramão dos diários digitais mais populares, como o da Virgínia, por compartilhar informações em menor quantidade, com mais profundidade e para um público reduzido. Além disso, Annie produz vídeos sobre a própria prática de escrever diários físicos, para evitar o uso excessivo das redes sociais. No material destacado logo abaixo, um dos mais vistos do seu canal, ela dedica pouco mais de meia hora para elaborar o seu amor por diários, que funcionam em sua rotina como uma maneira de “manter a sanidade”, tratando o hábito da escrita como uma verdadeira desintoxicação digital possibilitada pelo contato com a materialidade do papel e o cuidado com a partilha de sua subjetividade.

Figura 1 – Annie Manora sobre a prática de escrita de diários (YouTube – Canal Annie Manora).
Da mesma forma, a produtora de conteúdo estadunidense Anaïs Laure utiliza o seu canal no YouTube, com mais de 70 mil seguidores, para documentar a sua vida criativa, falando sobre hábitos de leitura, escrita e cotidiano. No vídeo em destaque logo a seguir, a jovem encoraja a produção de diários íntimos como uma maneira de documentar a vida, em uma temporalidade da reflexão, necessariamente mais lenta. Sua posição dialoga diretamente com Sylvia Plath, uma vez que ambas usam a escrita de si como um modo de compreensão da existência.

Figura 2 – Anaïs Laure sobre a escrita de diários. (YouTube – Canal Anaïs Laure).
Além desses vídeos, muitos outros semelhantes me chamaram a atenção, pois percebi que em todos eles a escrita diarística propõe algo diferente: ao invés de executar uma performance pública, requisito para a sobrevivência online, pode-se utilizar o diário para a construção de um espaço sem plateias. O excesso de informações compartilhadas freneticamente, os muitos estímulos de cores, sons e o forte apelo comercial das redes sociais parecem ser os motivos pelos quais alguns jovens venham se aproximando de hábitos mais analógicos, numa tentativa de zelar pela própria existência e, quem sabe, “capturar a vida”, como sugeria Plath. Assim, esse movimento de incentivo à escrita seria o reflexo da necessidade de uma nova-velha relação com as experiências íntimas, buscando na prática diarística, histórica e resistente ao tempo o caminho para a (re)construção de memórias significativas. Vídeos de journaling (termo referente ao ato de escrever regularmente em um caderno físico a respeito de temas diversos), detox digitais (afastamento das redes sociais para diminuir seu uso excessivo) e rotinas analógicas são exemplos de práticas que parecem só crescer em plataformas como o YouTube, que privilegia vídeos mais longos, dando espaço para discussões mais aprofundadas. Nesse cenário, a materialidade do papel parece ter muito valor, uma vez que funciona como uma estratégia de recusa aos estímulos unicamente digitais. Em uma realidade cada vez mais acelerada, escrever à mão promete recuperar aspectos que a lógica técnica controla de forma abusiva: o tempo, o silêncio e a autonomia.
Diante desse quadro, o retorno da escrita diarística revela-se não apenas como uma tendência passageira, mas como uma resposta significativa às formas contemporâneas de documentar. No entanto, é bom não se esquecer dos desafios pela frente, pois manter um diário exige tempo, disciplina, silêncio e disposição para enfrentar aspectos da própria subjetividade que nem sempre são confortáveis. Nas redes sociais, podemos mascarar afetos negativos e nos apresentar sempre sob uma luz favorável. Na escrita diarística, ao contrário, nos comprometemos com a sinceridade de nossas disposições. Em uma realidade estruturada para capturar nossa atenção a todo instante, criar um espaço clandestino torna-se um ato cada vez mais difícil. Talvez seja justamente por isso que o retorno aos diários tenha tanta importância. Ao reivindicarem momentos de reflexão sem audiência, eles reafirmam a necessidade de cultivar uma relação mais autônoma com a própria vida. Entre os estímulos das telas e os excessos de informação sobre o cotidiano alheio, o velho caderno pessoal parece devolver ao sujeito a oportunidade, cada vez mais rara, de, na intimidade da escrita, preservar sua própria experiência.
Para saber mais…
SIBILIA, Paula. A intimidade escancarada na rede: blogs e webcams subvertem a oposição público/privado. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 26., 2003, Belo Horizonte. São Paulo: Intercom, 2003.