
Um ano e, até então, 270 mil mortes depois, o presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que o uso de máscaras causaria “dor de cabeça” entre outros “efeitos colaterais”, apareceu usando máscara em uma cerimônia, bem como as demais autoridades do governo, ao contrário do habitual. À exceção dos últimos 36 eventos oficiais, em que o presidente apareceu sem fazer uso de nenhuma medida de prevenção contra a disseminação da COVID-19, essa aparição pública, que sinaliza uma tentativa de reposicionamento da atitude negacionista do governo perante à pandemia, ocorre em 10/03/2021. Essa poderia ser uma data qualquer, não fizessem apenas dois dias da decisão do STF que anulou as acusações que levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 580 dias de prisão; e não tivessem se passado cerca de 4 horas de suas declarações em cadeia nacional, as quais se tornariam símbolo da reentrada do petista na cena política brasileira.
Tais declarações ocorreram durante uma coletiva de imprensa realizada naquela quarta-feira, das 11h às 14h. Somente em sua conta do Instagram (sem mencionar outras diversas contas e canais de televisão que transmitiram o pronunciamento ao vivo), o número de espectadores superou os 25 mil. No Twitter, 2,5 milhões de publicações foram geradas a partir do discurso; no Facebook, o número ultrapassou os 20 milhões. Ainda segundo pesquisa realizada a partir do Google Trends, no maior site de buscas do mundo, o interesse pelo termo “Lula” saltou de 8 para 100 pontos, se compararmos os índices do dia 28 de fevereiro deste ano com aqueles registrados entre os dias 7 e 13 de março, semana da anulação da condenação e do proferimento do discurso. O gráfico abaixo ilustra esses dados:

Essa potente circulação do discurso do ex-presidente Lula, seu processo de produção de audiências multidirecionais e seus efeitos relacionam-se ao que o antropólogo da linguagem Charles Briggs, desde 2005, tem chamado de comunicabilidade. Essa noção diz respeito ao processo por meio do qual discursos sinalizam trajetórias de produção, circulação e recepção, bem como formas de interpelação e agência dos públicos projetados. Para além do entendimento de comunicabilidade como um modo de comunicação, compreensão e uma capacidade microbial de disseminação, Briggs adiciona ao termo o sentido de infecção em referência ao modo como textos e as ideologias a estes atreladas encontram audiências e se situam política e socialmente.
Em outras palavras, à medida em que um dado discurso circula entre diferentes tempos, espaços e audiências, ele projeta mapas comunicacionais que têm a ver tanto com as ideologias de produção, circulação e recepção dos textos [comunicados] quanto com o caráter viral da circulação dos discursos nas sociedades. Desse modo, a depender da adesão a uma cartografia comunicável, um discurso pode viralizar em diferentes escalas, com diferentes efeitos.
Assim, o que tem sido chamado por jornalistas e analistas políticos de “efeito Lula” é, em termos semióticos, a comunicabilidade projetada pelo discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na esfera pública brasileira. Ou seja, as disputas pelos modos de interpretar a fala do petista naquela ocasião, delineadas nas diferentes trajetórias que seu discurso assumiu, apontam para cartografias comunicáveis em disputa no atual cenário brasieliro. A fim de entendermos melhor como textos circulam na vida social e seus impactos, passamos a analisar um dos momentos específicos dessa trajetória infecciosa de sentidos e os efeitos que ela tem produzido no cenário político nacional, mais especificamente na forma como o Governo Federal se posiciona a respeito da pandemia de COVID-19, que, no momento de publicação deste texto, já soma mais de 460 mil mortes em território nacional.
Em seu discurso, Lula destacou que o país está “totalmente desordenado e desagregado porque não tem governo”, e que muitas das mortes por COVID-19 poderiam ter sido evitadas “se a gente tivesse um governo que tivesse feito o elementar”. Posta essa crítica, o ex-presidente elencou o que teria sido feito por “um Presidente da República que se respeitasse e que respeitasse o povo brasileiro”: criação um comitê de crise com representantes políticos e científicos, priorização de dinheiro para combate à pandemia e compra de vacinas.
Além de pontuar o que se espera de um presidente da república num momento de crise sanitária, Lula também enfatizou os momentos em que Bolsonaro subestimou a gravidade da COVID, alegando que “quem tem medo do covid é maricas, que era uma gripezinha, que a COVID era coisa de covarde, que ele era ex-atleta e que, portanto, não ia pegar.” E arrematou recordando-nos que, em seu governo, quando enfrentamos a crise da H1N1, 80 milhões de brasileiros foram vacinados em três meses, através do Sistema Único de Saúde (SUS).
Cerca de uma hora depois do fim do discurso de Lula, Flávio Bolsonaro, filho do atual presidente Jair Bolsonaro, utilizou grupos de mensagens do Telegram para pedir que viralizassem uma foto de seu pai com os dizeres: “Nossa arma é a vacina”. Às 15h41, o senador postava a mesma imagem em sua conta do Twitter, alegando que, nos próximos meses, “vacinaremos dezenas de milhões de brasileiros”. Depois de meses em que, consecutivas vezes, o presidente se negou a comprar vacinas para o país, afirmou que não tomaria a vacina, e até mesmo sugeriu que vacinados poderiam ser transformados em jacaré, fica difícil imaginar o tipo de malabarismo narrativo que seria preciso para emendar, repentinamente, uma defesa à vacina. Mas, para surpresa daqueles que esperavam uma manobra miraculosa, nada foi preciso: bastou, ainda na manhã do dia 10, afirmar para seus apoiadores que não é negacionista e que nunca foi contra a vacina. E assim, como em um passe de mágica, era inaugurada uma nova narrativa bolsonarista sobre sobre a pandemia de COVID-19 e a vacina.

Lula destacou, ainda, o desaparecimento de Zé Gotinha, personagem elaborado na década de 1980 para incentivar a vacinação de crianças contra o vírus da poliomelite. Segundo Lula, “Bolsonaro mandou ele embora porque pensou que ele era petista”. Dois dias depois, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, outro dos filhos do presidente, resolveu demonstrar à população onde estava Zé Gotinha, através de uma arte que, para dizer o mínimo, poderia ser considerada de péssimo tom. Nessa imagem (abaixo), que aponta para a agenda armamentista e militarista do atual governo, o personagem lúdico que habitou a infância de diferentes gerações brasileiras veste uma bandeira do país como capa e segura, sorridente, uma vacina como fuzil. No tweet em que divulgou a arte, e que foi apagado pouco tempo depois, leem-se os dizeres: “Nossa arma agora é a vacina!”. Em seguida, após receber cornetadas de internautas, Eduardo corrigiu seu ato falho eliminando o advérbio de tempo: “Nossa arma é a vacina”. E, após algumas horas de críticas, optou por apagar o tweet de vez.

Ainda que seja uma analogia clichê, é absolutamente impossível não considerar que Orwell, se estivesse vivo, deveria estar cobrando direitos autorais a Bolsonaro, por encenar com tamanha precisão o Ministério da Verdade por ele narrado em 1984. Na obra, a alteração de documentos e periódicos, bem como a publicação retroativa de notícias com uma nova versão dos fatos, servem como ferramentas para dar suporte à realidade paralela criada. No Brasil de 2021, novas palavras são lançadas, duas ou três ações são alteradas, e os apoiadores precisam fazer malabarismos para justificar, com qualquer estratégia retórica, como o presidente pode transitar entre polos tão opostos em alguns poucos dias.
No intervalo entre a escrita e a publicação desse texto, mais uma guinada discursiva foi produzida: no dia 10 de junho (exatos 3 meses após o discurso do ex-presidente petista), Bolsonaro anunciou publicamente que o atual ministro da saúde Marcelo Queiroga emitiria um parecer desobrigando o uso de máscara por pessoas imunizadas contra a COVID-19. Em um processo de modulação do negacionismo inicial, apesar da aparente aceitação das orientações científicas, o discurso governista parece buscar uma forma de seguir incentivando as posturas e crenças que começou a propagar em 24 de março de 2020. Nesse sentido, importa lembrar que a adesão à narrativa pró-vacina e ao uso de máscaras por parte do governo não se dá de maneira voluntária. O que, de certa forma, explica a precipitação da desobrigação do uso de máscaras para aquelas/es que já estiveram vacinadas/os. Assim, depois de apontar por tanto tempo o uso de equipamentos de proteção como uma “prática esquerdista”, o governo volta a investir no discurso das liberdades individuas, sugerindo que a gestão, democrática como se apresenta, não pode obrigar seus cidadãos a nada – nem mesmo a abandonar hábitos que comprovadamente atentam contra a saúde pública.
Para Briggs, os processos comunicativos são construções socialmente situadas. Nesse sentido, como ele afirma em Mediating Infanticide (2007), “o valor das cartografias comunicáveis reside na sua reivindicação tanto para mapear o que está ocorrendo em determinados eventos e processos discursivos quanto para reificar certas dimensões comunicativas de maneiras particulares e apagar outras” (p. 556). Exemplo dessas cartografias comunicáveis que destacam certas narrativas, apagando outras, é o caso da narrativa bolsonarista pró-vacina, inaugurada pelas ações discursivas de Flávio Bolsonaro no Twitter, logo após o pronunciamento do ex-presidente Lula. Nesse processo comunicativo, o que vemos é um intenso movimento de apagamento e reescritura do negacionismo científico até então sustentado pelo governo.
Nesse sentido, para além dos efeitos imediatos gerados pelo discurso do ex-presidente – e daqueles que ainda estão em curso -, nos importa destacar aquilo que há muito tempo a esquerda vem tentando sem sucesso: encontrar ressonância na sociedade. Em um pronunciamento, que não contou com a cobertura da mídia corporativa nacional, Lula conseguiu interpelar/mobilizar a sociedade, de modo a posicionar-se como um candidato competitivo, forçando, assim, uma mudança na estratégia de comunicação bolsonarista.
Essa mudança aponta para o caráter não linear da comunicabilidade, através do qual o poder que envolve tais práticas consiste não apenas na tentativa de controlar a forma como o discurso se desdobra em seu contexto de produção, mas também em expectativas de controle da circulação. Em outras palavras, a forma como os textos e as ideologias encontram audiências e localizam-se política e socialmente se dá num processo poderoso que envolve modelação e contestação dos mapas comunicáveis que nos interpelam. Assim, embora os discursos públicos especifiquem, implícita ou explicitamente, quais públicos devem recebê-los, não é possível determinar as maneiras pelas quais as pessoas se imaginarão em relação aos textos e como/por onde – ou se – os discursos circularão.
Quais serão os próximos efeitos do “Efeito Lula”? Considerando especialmente os eventos de 2022, é importante ter em tela que, a exemplo de todo processo comunicável, os processos eleitorais ocorrem em arenas que envolvem modelação e contestação contínuas dos discursos comunicados. Portanto, é impossível prever efeitos de sentido futuros. Ainda assim, o que temos chamado de “efeito Lula”, além dos impactos concretos sobre a cena política atual, mencionados aqui, não deixa de ser um poderoso exemplo de como o discurso, bem como seus processos de produção e circulação, importam nas disputas políticas. Talvez a observação mais atenta desses processos seja um caminho importante para que o campo progressista brasileiro possa novamente interpelar suas bases, de modo a produzir outros efeitos, no tortuoso e interminável caminho de construção de uma democracia.

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