VIAGENS INTERNACIONAIS DE UM SLOGAN NACIONALISTA

O slogan acima, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, foi veiculado pelo SBT após a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, aparecendo como um aceno patriota e uma possível mensagem aos eleitores dos partidos de esquerda, que deveriam ir pra Cuba ou Venezuela. Diferentemente do grito “vai pra Cuba”, a sintaxe do “ame-o ou deixe-o” soa estranha aos ouvidos brasileiros, revelando a expressão como um estrangeirismo, emprestado de outros momentos de intolerância nacionalista em outros lugares. Ironicamente, esse lema do patriotismo brasileiro se adapta de um grito de ordem dos Estados Unidos (“America, love it or leave it”). Mas, a frase já fez outras paradas na sua circulação global. São essas paradas que chamamos, nos estudos da linguagem, de entextualização.

A divulgação pelo SBT resgata uma frase que foi entextualizada em português e no Brasil sob a presidência do General Médici, entre out/69  e mar/74 (Fig2). Fazia parte de propagandas do regime, junto com outras frases como “quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”. Portanto, o resgate não é apenas de uma frase pronta, mas de ideologias que foram construídas nos anos de chumbo da ditadura no Brasil. Nessa época, qualquer manifestação contrária ao governo era reprimida com a prisão, uma vez que direitos fundamentais dos cidadãos estavam suspensos! A censura estava em seu auge, controlando os meios de comunicação e diferentes manifestações artísticas (teatro, música, dança etc.) e rechaçando qualquer crítica ao governo. Ou seja: ao resgatar o velho slogan, busca-se evocar, de forma indireta – o que chamamos de indexicalizar – ideias e ideologias dos anos de chumbo, com repressão e censura. 

Imagem de Médici, presidente do Brasil durante a ditadura militar. Lê-se o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o".
 Figura 2 – Médici

O índice vincula a fala a contextos históricos e sociais maiores, independente das intenções declaradas de quem fala. A novidade do uso no SBT é que em vez de ser entextualizado por atores políticos ou pelo Estado, é um empresário que veicula o slogan ‘por conta  própria’, buscando se alinhar com o momento de ascensão política da extrema direita e  com uma certa nostalgia pela a ditadura militar. 

A primeira entextualização da frase foi feita nos Estados Unidos na década de 1950 e, como no Brasil, teve como alvo o “inimigo de dentro” – a suposta ameaça comunista. Nessa primeira versão, em inglês, a frase conta com aliteração, além de paralelismo de sintaxe: “love it or leave it”. O desejo de expulsar corpos estranhos manifesto no slogan veio no momento em que comunistas eram apontados como cidadãos desleais, tendo levado, dentre outras, à execução do casal de judeus estadunidenses Julius e Ethel Rosenberg por espionagem. Artistas e intelectuais identificados com o partido comunista perderam cargos e foram proibidos de trabalhar em Hollywood, por exemplo. Assim, o slogan resume a chamada “caça às bruxas”, nome dada à perseguição política liderada pelo senador Joseph McCarthy.

Na década de 1970, a frase foi novamente entextualizada no esforço de desqualificar o movimento de protestos contra a guerra do Vietnam. Em 1970, uma música ‘country’ até foi lançada com o título (e refrão) “It’s America – love it or leave it”. Já bastante ‘viajada’, a frase serviu para denegrir opositores, hippies e quaisquer “dissidentes” da ordem moral e política vigente.  Um trecho da música lamenta:

É difícil de entender quando você lê sobre um cara falando de amor enquanto ataca a terra onde ele mesmo nasceu. Se eles estão incomodados, podem se mudar para longe daqui. Afinal, é isso que significa democracia. Isso aqui é a América. […] É a melhor que há, acredite. Bons homens morreram para que pudéssemos estar vivos para vê-la. Isso aqui é a América, ame-a ou deixe-a… (SUPER INTERESSANTE, 2018)

A frase também ganhou um forte caráter racista, sendo usada  pela Ku Klux Klan e  por movimentos contra a integração racial. Naquela década, existiam placas nas vias públicas de algumas cidades com frases como “aqui é terra da Klan – ame-a ou deixe-a, ajude a combater o comunismo e a integração”, como vemos na fig.3. Mais recentemente, Donald Trump retomou o sentimento, em relação a uma oponente política, Deputada Ilhan Omar, nascida na Somália, sugerindo que ela “volte de onde veio”.

Figura 3 – Klan Country

O slogan também foi entextualizado na perseguição a inimigos externos: os imigrantes. Na Austrália, é possível encontrar a frase “Australia, love it or leave it” em adesivos colados em carros de supremacistas brancos e ultranacionalistas. O alvo foi, inicialmente, a onda de migração da Ásia no final do século  XX e, mais recentemente, os imigrantes mulçumanos tidos como “un-Australian”, insulto também emprestado do “un-American”. No caso australiano, o slogan ganhou tanta força dentro de debates sobre imigração que uma versão até virou nome de um partido político (“Love Australia or Leave”). Já nos Estados Unidos, a falta de patriotismo tem sido uma acusação direcionada principalmente às populações não-brancas, ou seja, a plena cidadania parece ser condicional apenas para alguns, enquanto outros são livres para criticar sem ser chamados de desleais ou convocados a ir embora.

Em todas essas expressões, existe a fantasia de que quem usa a frase define o que é a nação e quais são as condições para permanecer como parte da nação. A frase posiciona o interlocutor como alguém obrigado a seguir as ordens de “amar” a nação para meramente existir nela. O sentido de amor na frase fica evidente também em outros discursos que reforçam um nacionalismo excludente e purista, que é de aceitação de tudo, autoritarismo e arbitrariedade desde que vestido com as cores da bandeira. Na avaliação do historiador Ibram Kendi, a frase transmite – principalmente para pessoas não brancas – que aqui não é nossa casa. Porque é quase essa a ideia de  ‘como você tem coragem de vir na minha casa para criticá-la? E, portanto, faz todo sentido que, se essa não é nossa casa, não temos nenhum direito de criticá-la. Mas, se é a nossa casa, então tenho tanto direito de criticar quanto de querer melhorar como qualquer outra pessoa. (ROSEMBERG, J. 2019) 

Os contextos e alvos vão mudando, mas a intolerância às diferenças persiste. Mas como toda frase pronta, as respostas também vêm prontas. Em respostas às entextualizações feitas por políticos anti-imigração, como Trump ou Bolsonaro, circulam memes de pessoas indígenas perguntando “quando você vai embora”?. 

Figura 4 – Estados Unidos
Figura 5 – Austrália
Figura 6 – Nova Zelândia
Figura 7- Brasil

Assim, a inversão das relações de poder passa também pela apropriação e ressignificação de palavras de ordem de exclusão.

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